Quinta-feira, 2 de Julho de 2009
Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
Os Olhos Abertos de Ricardo Rangel
Ricardo Rangel, mestre do fotojornalismo e do ‘olhar inconformado’ sobre a História de Moçambique faleceu em Junho aos 85 anos. A sua morte ainda está viva, como lembram à BBC alguns dos seus amigos, antigos alunos e camaradas de profissão.
Clique aqui para ouvir Tribuna Cultural
“Amava bom vinho, boa comida, boa mulher e claro… Jazz; era um grande trabalhador, que perdeu a vida ainda trabalhando aos 85 anos, coisa muito rara; ele pensava na vida, não pensava na morte e tudo em que ele se metia era realmente com uma grande paixão; era um pai… Um pai, sim; o Ricardo, para mim, foi um fotógrafo completo”, comentaram alguns dos que com ele comungaram.
aqui;http://www.bbc.co.uk/portugueseafrica/news/story/2009/06/090617_mozrangelobimt.shtml
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
IMPRESSA ..
Um texto sobre Ricardo Rangel, publicado no jornal Público.
"Ricardo Rangel, o fotógrafo que ofereceu um espelho aos moçambicanos"
Por Alexandra Prado Coelho
1924-2009
1924-2009
Os amigos disseram-lhe adeus ao som de Charlie Parker, como ele teria gostado. O jazz era, a seguir à fotografia, a grande paixão de Ricardo Rangel, o decano dos fotojornalistas moçambicanos, que morreu aos 85 anos. Desapareceu o homem com "um clique mágico".
Um dia, numa conversa de café, o fotojornalista moçambicano Ricardo Rangel ouviu falar de um miúdo negro que era pastor e trabalhava para um criador de gado português que, como castigo por ele ter perdido um animal, o tinha marcado na testa com o mesmo ferro em brasa que usava para marcar o gado. Rangel pegou no carro e, juntamente com Raul Alves Calane da Silva, companheiro de redacção, pôs-se a caminho para a zona de Changalane, onde lhe tinham dito que o miúdo vivia. Procurou-o durante dois dias até finalmente o encontrar. Chamavam-lhe "o oito", por causa dessa marca, em forma de oito deitado. Rangel fotografou-o - os olhos de uma tristeza infinita, e a marca do patrão gravada na testa.
"O indivíduo [o português] queria dar-nos um tiro", recorda Calane da Silva, ao telefone com o P2 a partir de Maputo, a capital moçambicana, poucas horas depois do funeral do seu grande amigo e companheiro de aventuras desse tempo em que perseguiam as notícias "até às últimas consequências, mesmo com risco de vida".
Ricardo Rangel morreu no dia 11, em Maputo, aos 85 anos, na sequência de problemas cardíacos, e teve, na segunda-feira, um funeral com honras de Estado.
Ricardo Rangel morreu no dia 11, em Maputo, aos 85 anos, na sequência de problemas cardíacos, e teve, na segunda-feira, um funeral com honras de Estado.
A última despedida dos amigos foi como ele tinha pedido: "ao som de Charlie Parker", conta Calane da Silva. "O Ricardo tinha um clique mágico", continua o amigo. "Estava sempre com os olhos atentíssimos e aliava o fotojornalismo à arte fotográfica." Gostava de sair para a rua e fotografar, mesmo sabendo que no Moçambique pré-independência a censura não iria deixar passar a grande maioria das imagens. "Ele guardava-as porque tinha o sentido da História. Ia-as recolhendo, sabendo que um dia seriam a imagem histórica do que aconteceu.
"Ia registando um país.
E fazia-o "com uma consciência política muito mais marcada que o resto do pessoal", sublinha ao P2 Kok Nam, outro grande nome do fotojornalismo moçambicano e companheiro de trabalho de Rangel em várias publicações. "Ele já era anticolonial nos anos 40.
E fazia-o "com uma consciência política muito mais marcada que o resto do pessoal", sublinha ao P2 Kok Nam, outro grande nome do fotojornalismo moçambicano e companheiro de trabalho de Rangel em várias publicações. "Ele já era anticolonial nos anos 40.
Teve sempre muito a noção da exploração do homem pelo homem."
A Rua Araújo
Filho de um negociante grego, Ricardo Rangel, que nasceu em 1924 na então Lourenço Marques (hoje Maputo), tinha uma mistura de sangue europeu, africano e chinês que fez dele o primeiro foto-repórter não branco a trabalhar para a imprensa moçambicana. Em 1941 foi estagiar para o laboratório de fotografia de Otílio Vasconcelos, passando depois pelo estúdio fotográfico Focus, antes de, em 1952, chegar finalmente aos jornais, tornando-se "foto-repórter" do Notícias da Tarde, onde ficou até em 1956 se mudar para o Notícias. "A fotografia sempre foi para mim uma coisa mágica e comecei no laboratório, a varrer o laboratório. Andei anos nisso", confidenciou a Luís Carlos Patraquim, numa entrevista publicada em 1991 no PÚBLICO. "Só muito mais tarde me atrevi a pegar num caixote e, mesmo assim, quase às escondidas."Era depois de terminar o trabalho e de sair da redacção que, com a "Canon a tiracolo e uma sede infinita de estar com a sua gente, rumava à grande catedral dos sacrifícios ingénuos", a Rua Araújo, na Baixa de Lourenço Marques, relata Patraquim. "No começo não sabia porque tirava certas fotos", confessa-lhe Rangel. "As pessoas diziam-me: 'Tu não és preto, porque é que andas a tirar fotografias a pretos?' Comecei a tomar consciência quando as queria publicar e a censura cortava. Nada de mendigo, o gajo todo roto a pedir, o polícia a algemar o 'indígena'. Tirei muitas fotos que sabia que nunca seriam publicadas. E guardei sempre os negativos."
Mais tarde as fotos da Rua Araújo transformar-se-iam num livro, O Pão Nosso de Cada Noite, e eternizariam as prostitutas de calções curtos e penteados elaborados que nos anos 60 e 70 trabalhavam nos bares Texas ou Casablanca. "A Rua Araújo era impublicável", conta Rangel nessa entrevista. "Muitas das minhas chapas ficaram nas redacções por onde andei, mas o que, ao longo da década de 60, fui fixando da minha rua, esse é material que me pertence."Entre as prostitutas, os marinheiros e os noctívagos da Rua Araújo misturavam-se muitos pides, recorda Calane da Silva. E durante anos Rangel fotografou-os. Depois do 25 de Abril, Calane escreveu uma grande reportagem sobre eles, e publicaram as imagens. "Pusemos os homens com os nomes em baixo e tudo."
A paixão pelo jazz.
Entre os anos 60 e 64, Rangel foi chefe da secção de fotografia do recém-fundado A Tribuna. E, em 1970, com outros jornalistas, entre os quais o colega fotojornalista Kok Nam, lançou-se na aventura da revista Tempo, a primeira a cores em Moçambique. Kok Nam lembra-se da última página chamada Objectiva, "que seria como que o editorial dos repórteres fotográficos", e do peso que a fotografia conquistou na altura. Mas lembra-se também como na Tribuna Rangel "fez grandes reportagens nos subúrbios, quando ninguém pegava nos subúrbios", e como, apesar de "não ser um fotógrafo oficial", fotografou três chefes de Estado depois da independência. "Viveu tudo, deixou uma grande obra, deixou a história de Moçambique registada."Foi nos anos 60 que José Luís Cabaço começou a ter um contacto mais intenso com ele. "Partilhávamos visões sobre o colonialismo e pertencíamos ao mesmo grupo", conta ao P2. Mas foi depois da independência, na época em que Cabaço se tornou ministro da Informação, que "a amizade se consolidou", e quando decidiu criar "o Domingo [em 1981], que era um jornal muito gráfico, muito ligado à vida quotidiana", o ministro achou que "a pessoa óbvia" para o dirigir era Rangel. "Era a primeira vez que um fotógrafo assumia a direcção de um jornal", sublinha. Mas Rangel era muito mais do que um grande fotógrafo, afirma Cabaço. "Deu-nos uma grande lição de alegria de viver, amor pela vida e pelas pessoas e grande indignação com as injustiças." Amava a fotografia e amava profundamente o jazz. "O jazz tinha raízes na afirmação africana, na ideia do negro como sujeito musical, e é um elemento fundamental para compreender as várias dimensões através das quais Rangel vivia o seu nacionalismo", explica o antigo ministro. Até à chegada de Rangel, "a fotografia em Moçambique era a do colono, e o colonizado aparecia como complemento". Ele "traz o colonizado para sujeito do processo de registo, na sua dimensão de dominado e explorado", e assim torna-se "um construtor privilegiado do imaginário anticolonial".
A Rua Araújo
Filho de um negociante grego, Ricardo Rangel, que nasceu em 1924 na então Lourenço Marques (hoje Maputo), tinha uma mistura de sangue europeu, africano e chinês que fez dele o primeiro foto-repórter não branco a trabalhar para a imprensa moçambicana. Em 1941 foi estagiar para o laboratório de fotografia de Otílio Vasconcelos, passando depois pelo estúdio fotográfico Focus, antes de, em 1952, chegar finalmente aos jornais, tornando-se "foto-repórter" do Notícias da Tarde, onde ficou até em 1956 se mudar para o Notícias. "A fotografia sempre foi para mim uma coisa mágica e comecei no laboratório, a varrer o laboratório. Andei anos nisso", confidenciou a Luís Carlos Patraquim, numa entrevista publicada em 1991 no PÚBLICO. "Só muito mais tarde me atrevi a pegar num caixote e, mesmo assim, quase às escondidas."Era depois de terminar o trabalho e de sair da redacção que, com a "Canon a tiracolo e uma sede infinita de estar com a sua gente, rumava à grande catedral dos sacrifícios ingénuos", a Rua Araújo, na Baixa de Lourenço Marques, relata Patraquim. "No começo não sabia porque tirava certas fotos", confessa-lhe Rangel. "As pessoas diziam-me: 'Tu não és preto, porque é que andas a tirar fotografias a pretos?' Comecei a tomar consciência quando as queria publicar e a censura cortava. Nada de mendigo, o gajo todo roto a pedir, o polícia a algemar o 'indígena'. Tirei muitas fotos que sabia que nunca seriam publicadas. E guardei sempre os negativos."
Mais tarde as fotos da Rua Araújo transformar-se-iam num livro, O Pão Nosso de Cada Noite, e eternizariam as prostitutas de calções curtos e penteados elaborados que nos anos 60 e 70 trabalhavam nos bares Texas ou Casablanca. "A Rua Araújo era impublicável", conta Rangel nessa entrevista. "Muitas das minhas chapas ficaram nas redacções por onde andei, mas o que, ao longo da década de 60, fui fixando da minha rua, esse é material que me pertence."Entre as prostitutas, os marinheiros e os noctívagos da Rua Araújo misturavam-se muitos pides, recorda Calane da Silva. E durante anos Rangel fotografou-os. Depois do 25 de Abril, Calane escreveu uma grande reportagem sobre eles, e publicaram as imagens. "Pusemos os homens com os nomes em baixo e tudo."
A paixão pelo jazz.
Entre os anos 60 e 64, Rangel foi chefe da secção de fotografia do recém-fundado A Tribuna. E, em 1970, com outros jornalistas, entre os quais o colega fotojornalista Kok Nam, lançou-se na aventura da revista Tempo, a primeira a cores em Moçambique. Kok Nam lembra-se da última página chamada Objectiva, "que seria como que o editorial dos repórteres fotográficos", e do peso que a fotografia conquistou na altura. Mas lembra-se também como na Tribuna Rangel "fez grandes reportagens nos subúrbios, quando ninguém pegava nos subúrbios", e como, apesar de "não ser um fotógrafo oficial", fotografou três chefes de Estado depois da independência. "Viveu tudo, deixou uma grande obra, deixou a história de Moçambique registada."Foi nos anos 60 que José Luís Cabaço começou a ter um contacto mais intenso com ele. "Partilhávamos visões sobre o colonialismo e pertencíamos ao mesmo grupo", conta ao P2. Mas foi depois da independência, na época em que Cabaço se tornou ministro da Informação, que "a amizade se consolidou", e quando decidiu criar "o Domingo [em 1981], que era um jornal muito gráfico, muito ligado à vida quotidiana", o ministro achou que "a pessoa óbvia" para o dirigir era Rangel. "Era a primeira vez que um fotógrafo assumia a direcção de um jornal", sublinha. Mas Rangel era muito mais do que um grande fotógrafo, afirma Cabaço. "Deu-nos uma grande lição de alegria de viver, amor pela vida e pelas pessoas e grande indignação com as injustiças." Amava a fotografia e amava profundamente o jazz. "O jazz tinha raízes na afirmação africana, na ideia do negro como sujeito musical, e é um elemento fundamental para compreender as várias dimensões através das quais Rangel vivia o seu nacionalismo", explica o antigo ministro. Até à chegada de Rangel, "a fotografia em Moçambique era a do colono, e o colonizado aparecia como complemento". Ele "traz o colonizado para sujeito do processo de registo, na sua dimensão de dominado e explorado", e assim torna-se "um construtor privilegiado do imaginário anticolonial".
Era nas imagens dele que o novo país se podia finalmente ver ao espelho.
E esse espelho mostrava as injustiças, mas mostrava também outras realidades. Calane da Silva lembra-se de uma imagem que Rangel mostrou na primeira exposição que fez em Moçambique, em 1957, e que mais tarde lhe ofereceu: um casal português, brancos de meia idade, transportando cimento à cabeça, enquanto constroem a sua casa, lado a lado com dois operários moçambicanos. Uma imagem a dizer que "os colonos também podem ser gente como nós". Quando, em 1971, Rangel foi enviado a Portugal para cobrir o primeiro festival de jazz de Cascais, voltou também cheio de fotografias que mostravam as peixeiras portuguesas, e as mulheres de trouxas à cabeça, para mostrar que afinal as diferenças entre um mundo e o outro não eram assim tão grandes. "Era também uma pedagogia", explica Calane da Silva.
Ricardo Rangel gostava de ensinar, e várias gerações de fotógrafos moçambicanos aprenderam com ele, primeiro nos jornais, depois, a partir de 1983, no Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que dirigia. Sérgio Santimano, hoje a trabalhar na Suécia, foi um dos que estagiaram com ele no Domingo. E não esquece o muito que aprendeu.
E esse espelho mostrava as injustiças, mas mostrava também outras realidades. Calane da Silva lembra-se de uma imagem que Rangel mostrou na primeira exposição que fez em Moçambique, em 1957, e que mais tarde lhe ofereceu: um casal português, brancos de meia idade, transportando cimento à cabeça, enquanto constroem a sua casa, lado a lado com dois operários moçambicanos. Uma imagem a dizer que "os colonos também podem ser gente como nós". Quando, em 1971, Rangel foi enviado a Portugal para cobrir o primeiro festival de jazz de Cascais, voltou também cheio de fotografias que mostravam as peixeiras portuguesas, e as mulheres de trouxas à cabeça, para mostrar que afinal as diferenças entre um mundo e o outro não eram assim tão grandes. "Era também uma pedagogia", explica Calane da Silva.
Ricardo Rangel gostava de ensinar, e várias gerações de fotógrafos moçambicanos aprenderam com ele, primeiro nos jornais, depois, a partir de 1983, no Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que dirigia. Sérgio Santimano, hoje a trabalhar na Suécia, foi um dos que estagiaram com ele no Domingo. E não esquece o muito que aprendeu.
Não esquece, por exemplo, o dia em que, encarregue de fazer fotos para um trabalho sobre o amor, ouviu as críticas de Rangel. "'Sérgio', disse ele, 'isto não é amor. Sabes o que é fome?', perguntou. E de repente meteu a fotografia na boca e começou a comê-la. 'Sabes o que é dançar?' E, sem eu ter tempo de reagir, agarrou-me e começou a dançar. Percebi o que ele queria dizer: a fotografia não pode ser meios-termos, meio gás." Mais tarde, já depois de viver na Suécia, encontrava-se às vezes com Rangel e falava-lhe nos seus projectos fotográficos. "Ele brincava com isso. 'Tu tens sempre projectos', dizia. 'Eu nunca tive nenhum projecto. Acho que um dia também vou ter que arranjar um projecto.'
"Santimano e todos os outros que aprenderam com ele "partilham a mesma visão humanista", escreve Simon Njami, director da bienal de fotografia de Bamako, no Mali, num texto para a exposição Iluminando Vidas, que esteve na Culturgest Porto em 2004. Rangel "ensinou-lhes a importância de uma interpretação com pudor e respeito pelo semelhante, como se o tema da fotografia fosse uma maneira de criar incessantemente um auto-retrato".
"Santimano e todos os outros que aprenderam com ele "partilham a mesma visão humanista", escreve Simon Njami, director da bienal de fotografia de Bamako, no Mali, num texto para a exposição Iluminando Vidas, que esteve na Culturgest Porto em 2004. Rangel "ensinou-lhes a importância de uma interpretação com pudor e respeito pelo semelhante, como se o tema da fotografia fosse uma maneira de criar incessantemente um auto-retrato".
Sexta-feira, 12 de Junho de 2009
Até sempre Ricardo
Como estás !? Imagino que já deves ter conhecimento , nao gostaria de ser eu a pessoa a dar –te a triste noticia do falecimento do nosso comum amigo Ricardo Rangel.
Sei tambem que ele era para ti uma pessoa muito especial .
E´realmente com tristeza que temos que enfrentar tal facto trágico.
Connosco ficará para sempre o espirito ,as boas memórias , o magnifico trabalho e muito mais do nosso querido amigo Ricardo Rangel.
Nos momentos dificeis e de tristeza os Mocambicanos se juntam em solidariedade e comungam como um grande familia a dor.
Um grande abraco
Luis do Amaral
11 de Junho 2009
Morreu esta noite, aos 84 anos, o decano do fotojornalismo moçambicano, Ricardo Rangel (Rádio Moçambique, noticiário das 21 horas). Paz à sua alma."MORREU FOTOJORNALISTA RICARDO RANGEL
O fotojornalista Ricardo Rangel faleceu ontem em Maputo. Até ao fecho da
edicao de hoje do “Noticias” eram escassas as informações sobre o sucedido, sabendo-se
apenas que Rangel perdeu a vida em sua casa.
Ricardo Rangel desempenhava até à data da sua morte o cargo de director do
Centro de Formação Fotográfica, onde se encontrava desde 1983. Em reconhecimento ao
seu percurso humano e profissional foi distinguido no ano passado com grau de doutor
Honoris Causa em História Visual, conferido pela Universidade Eduardo Mondlane
(UEM).
Ricardo Achiles Rangel é tido como o decano dos fotojornalistas moçambicanos,
tendo passado a sua vida a documentar os passos e a realidade do país. Trabalhou em
vários jornais nacionais, incluindo dois da Sociedade do Notícias, nomeadamente “A
Tribuna” e o “Domingo”, com passagem pela revista “Tempo”. Este fotojornalista
nasceu em Maputo em 1924."
Com a devida vénia (AIM) Agencia de Informacão de Mocambique
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Eleicões ...
foto; Sérgio Santimano da série "terra incógnita- Niassa" Lago Niassa 2002Governo a sair das eleições de 28 de Outubro próximo
A escolha será dos moçambicanos
- disse Daviz Simango depois de ser confirmado candidato presidencial do MDM
- “...os moçambicanos vão decidir se querem continuar a ser excluídos ou se querem
passar para um regime de democracia participativa e Estado de Direito” – idem
- disse Daviz Simango depois de ser confirmado candidato presidencial do MDM
- “...os moçambicanos vão decidir se querem continuar a ser excluídos ou se querem
passar para um regime de democracia participativa e Estado de Direito” – idem
in "médiaFax" ...
Domingo, 24 de Maio de 2009
Dia de África - 25 de maio
Celebra-se o dia de África, dia 25 de Maio, a data foi instituída na reunião de Adis Abeba, onde os líderes africanos criaram a OUA
(Organização da Unidade Africana), hoje a União Africana.
Dada a importância desse encontro, a ONU, em 1972, instituiu o dia 25 de Maio como Dia da Libertação de África.
(Organização da Unidade Africana), hoje a União Africana.
Dada a importância desse encontro, a ONU, em 1972, instituiu o dia 25 de Maio como Dia da Libertação de África.
Simboliza a luta e combate dos povos africanos pela sua independência e emancipação.
Terça-feira, 19 de Maio de 2009
Domingo, 10 de Maio de 2009
Sexta-feira, 8 de Maio de 2009
.......
Godard + SebergO primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainhaMe encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nadaE, assustada, eu disse não
O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
e encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não
O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
e instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração"
MARIA BETÂNIA (pena não saber como meter a música...ainda!)
Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
Sábado, 2 de Maio de 2009
Morreu um grande poeta-jornalista-escritor-amigo
HeliodoroBaptista foi vítima de uma paragem cardíaca.Heliodoro nasceu em Gonhame, Quelimane, Moçambique, onde reside na cidade da Beira.Publicou em 1987 Por Cima de Toda a Folha (Prémio Nacional de Poesia [Moçambique] em 1991) e A Filha de Tandy (1991).
Poemas seus, com traduções em várias línguas, constam de antologias e estudos publicados em Moçambique, Portugal e Itália; está incluído no CD Mãos Dadas (uma recolha de língua portuguesa), editado no Brasil.
"Dizem que os poetas sabem, sentindo. Distinguem-se dos homens da ciência porque estes estão credenciados por um saber contabilizável. Mas não há fronteira entre sentir e raciocinar. Persiste em todo o acto de sabedoria um diálogo secreto entre coisas e seres. A poesia de Heliodoro Baptista é mostra desse diálogo de intimidade: olhos agrestes escrevendo na poeira «a morte do poema para salvar a poesia». Palavras dele, estas. Mais que palavras, a sua vida é uma batalha pela redenção da palavra.
Heliodoro vive em estado de poesia.
Ele sabe a luz da palavra."
Mia Couto
Sexta-feira, 24 de Abril de 2009
Domingo, 19 de Abril de 2009
Terça-feira, 14 de Abril de 2009
25 de Abril
www.myspace.com/mwanamochuaboFESTA MOÇAMBICANA
25 ABRIL kl. 19.00
STOCKHOLM
Convidada ”especial” CELESTE CAMBAZA – Moda/música/ Jazz/fusão !!!!!!!
.Jantar/buffet “culinária moçambicana”-chamussas.caril de côco.vegetais.feijoada.chetni. (especialidade goesa) e muito, muito mais...... Música ao vivo com Celso Paco e a banda CAB, passagem de modelos africanos.... Rifas, sorteios e muita festa, dança á maneira Moçambicana.....
Bém-vindo e traga um amigo/a !!!!!! Välkommen och ta med en kompis !!!!!!
160kr-sócios (medlem).250kr-n/sócios (icke medlem). Barn/student till 18 år 80:-kr Inclusivé/Jantar/buffet... Levande musik !!!!!!
Vi vill samtidigt passa på att uppmana alla som vill vara medlemmar att betala in årsavgiften på PG 43 45 62 – 5
ODENGATAN . 60 . 12 andar
.Ponte.vanskapsforeningen.mocambique.sverige@hotmail.com
Segunda-feira, 6 de Abril de 2009
Salvador /Bahia
Não consigo ir embora da Bahia.
Acabaram minhas férias e continuo aqui.
Mesmo que eu viaje depois do Carnaval, levarei a Bahia comigo.
Não sou eu quem olha; a Bahia que me olha de fora, inteira, sólida, secular, a paisagem me olha e fica patente minha alienação de carioca-paulista, fica evidente meu isolamento diante da vida, eu essa estranha coisa aflita que está sempre entre um instante e outro, sem nunca ser calmo, inconsciente e feliz como um animal.
Ninguém aqui se observa vivendo. Salvador não é uma "cidade partida" como é o Rio, nem a cidade que expele seus escravos, como São Paulo, que um dia será castigada, estrangulada por sua periferia. Aqui, de alguma forma misteriosa, os pobres e negros, mesmo sem posses, são donos da cidade. A cultura africana que chegou nos navios negreiros parece ter encontrado a região "ideal" neste promontório boiando sobre o mar, batido de um vento geral, para fundar uma cidade erótica e religiosa, plantada nos cinco sentidos, fluindo do corpo e da terra. Os casarios subiram os montes, desceram em vales por necessidades dos colonos e dos escravos do passado, o espaço urbano foi desenhado pelo desejo dos homens.
A Bahia foi o lugar perfeito para a África chegar.
Tudo se sincretiza, natureza e cultura. Espírito e matéria se unem como um bloco só, amores e vinganças fluem no sangue dos galos e dos bodes, esperanças queimam nas velas de sete dias, todas as coisas se amontoam num grande procedimento barroco de não deixar vazio algum, nada que sobre, que fique de fora, nada que isole matéria e gente.
Os deuses não estão no Olimpo; são terrenos e florestas, estão na rua, no dendê, dentro da planta. Consciência e realidade não se dividem, o povo e o mundo são a mesma coisa, e isso aplaca as neuroses, as alienações das megacidades onde o homem é um pobre diabo perdido no meio dos viadutos.
Como nas fotos do Mário Cravo Neto, tudo se une em um só bloco: o alvo pato e a mão negra, a mulher nua e a pedra, o nadador, o sol e a água, as frutas, os cestos e as bocas, as plantas e os pés, os búzios e os segredos, os santos e os orixás, as mãos e o tambor, a fome e a carne, o sexo e a comida. Tenho uma espécie de inveja e saudade desta cultura integrada, dessa sociedade secreta que vejo nos olhares das pessoas falando entre si, uma língua muda que não entendo, tenho inveja da palpabilidade de suas vidas materiais, tenho inveja da grande tribo popular que adivinho nos becos e ladeiras, das pessoas que riem e dançam nas beiras de calçada, que se amam na beira do mar, tenho inveja desta cultura calma que vive no "presente", coisa que não temos mais nas "cidades partidas", sem passado e com um futuro que não cessa de não chegar.
Nesta época maníaca e americana, que se esvai sem repouso, aqui há o ritmo do prazer, a "sábia preguiça solar" de que falou Oswald e que Caymmi professa.
A civilização que os escravos trouxeram criou esta "grande suavidade", este mistério sem transcendência, este cotidiano sem ansiedade, esta alegria sem meta, esta felicidade sem pressa. Aqui a cultura vem antes da lei. Aqui o soldado na guarita é um negro com passado e orixás, dentro da roupa de soldado. O bombeiro, o vendedor, o pescador, o vagabundo se comunicam e existem antes das roupagens da sociedade. Até se travestem, se fantasiam de mesmos nos horrendo resorts caretas da burguesia, mas não perdem a alma para o diabo, defendidos pela vigilância de seus Exus.
A sinistra modernidade tenta adquirir a Bahia, possuí-la, apropriar-se das praias, das ilhas, dos panoramas. Mas mesmo o progresso urbano e tecnológico aqui fica domado de certo modo pela cultura, que resiste a esses embates.
Os balneários turísticos aqui me parecem meio patéticos, meio Maiami na vivência luxuosa dos acarajés, camarões e uísques trazidos por serviçais iaôs e mordomos de cabeça feita. Aqui não se vêem os rostos torturados dos miseráveis do Rio e São Paulo: a pobreza tem uma religião terrena costurando tudo. As festas do ano inteiro não são diversionistas, orgiásticas, para "divertir" - são para integrar. As festas têm uma religiosidade pagã, sem sacrifícios, sem asceses torturados de olhos virados para o céu.
Nada sobrou do barroco europeu sofrido; prosperou o barroco gordo, pansexual, com as frutas, os anjinhos nus, os refolhos e os européis invadindo o convulsivo barroco da contra-reforma, com as curvas carnavalescas nas igrejas cheias de cariátides peitudas, sexies, gostosas, como as mulatas do Pelourinho. Não é uma sociedade, mas um grande ritual em funcionamento.
O Brasil aflito, injusto, imundo, inóspito devia aspirar a ser Bahia. Aqui dá para esquecer o jogo sujo do Congresso em Brasília, revelando a face oculta dos bandidos com imunidade, emporcalhando a democracia, aqui você não morre afogado na enchente da marginal Tietê, nem o Ronaldinho é assaltado com revólver na cabeça. Não conheço lugar mais naturalmente democrático.
E, por isso, não consigo ir embora.
Vou comprar uma camiseta "NO STRESS" e ficar bebendo um frappé de coco para sempre.
Arnaldo Jabor - Porto da Barra - Salvador / BAHIA
Poesia

Luis Carlos Patraquim acaba de publicar o livro “Pneuma” (capa reproduzida daqui). A editora é a Caminho. Esperemos a edição da Ndjira.
[sobre o poeta este texto de Pedro Mexia, anterior a esta obra]
[sobre o poeta este texto de Pedro Mexia, anterior a esta obra]















